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segunda-feira, 20 de maio de 2013

TRIBOS E CIVILIZAÇÕES A TRAVES DO PROJETO ACOR DA CULTURA


 

A COR DA CULTURA

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Multidisciplinaridade
O Brasil é um país de cultura diversificada, formado por gente de múltiplas cores, etnias, credos, ideias. Mesmo assim, até bem pouco tempo, a representação da sociedade brasileira era feita com famílias brancas apenas, com os negros aparecendo em situação de penúria, etc. O legado africano era frequentemente desvalorizado ou omitido.


Na tentativa de reverter essa situação, a Lei de Diretrizes e Bases foi alterada pela lei nº. 10.639, de 09 de janeiro de 2003, que determina a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileiras e Africanas e que esses conteúdos devem ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar da educação básica.

A África deu origem a diversos conhecimentos no passado e está ajudando a construí-los também para o futuro. É o que mostra uma iniciativa realizada em Porto Alegre, na Escola Estadual Dr. Victor de Britto, com um projeto que se destaca pela multidisciplinaridade envolvendo diferentes disciplinas, professores e alunos de várias idades. E que busca romper com a falsa ideia que os povos africanos não criaram civilizações, tecnologia e conhecimento; este é um dos grandes sustentáculos do racismo e do eurocentrismo ocidental, comenta a especialista Elisa Larkin.


Desde 2003, nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo inclui o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.



Ainda em Porto Alegre, uma iniciativa bem interessante foi a da Escola Municipal Dr. Liberato Salzano, que fica no bairro do Sarandi, que utilizou o episódio da Revolta da Chibata como inspiração para o projeto pedagógico multidisciplinar que culminou com a produção de vários documentários pelos alunos das turmas de sociologia e filosofia, história e artes.

 
Identidade
Ninguém é igual a ninguém. Mas ao longo da vida, a gente acaba descobrindo que tem pessoas mais parecidas com a gente e outras nem tanto. E é nessa relação de alteridade, no diálogo, no jogo de oposições e aproximações que formamos nossa identidade.

Às vezes a gente acaba pertencendo a este ou aquele grupo por escolha, mas certas características identitárias têm a ver com o país onde nascemos, a família de onde viemos, a cultura da qual fazemos parte, a língua que falamos, nosso gênero, nossa cor, etc.

Diferenças existem. Vão existir sempre. E é bom que existam. O problema é quando as diferenças servem para produzir preconceitos e desigualdades. É fundamental que a escola seja um espaço de valorização da identidade e da diversidade. E um dos passos é romper com a vinculação do negro à escravidão, como se a herança negra e africana ao Brasil se resumisse à mão de obra. Joaquim Nabuco disse: “Os negros deram um povo ao Brasil”. É o reconhecimento da função civilizadora dos negros no Brasil, como explica o escritor e professor Muniz Sodré. É a afirmação do patrimônio e dos valores civilizatórios afro-brasileiros e, consequentemente, da nossa humanidade e brasilidade.


Valorizar a identidade étnico racial dos alunos vem sendo um dos objetivos de uma iniciativa realizada no estado de São Paulo. O projeto pedagógico se chama “Minha e a sua identidade! Nossa diversidade”, do CEU EMEI Aricanduva, um dos vencedores da 4ª edição do Prêmio Educar para a Igualdade Racial.

Um dos desafios enfrentados pelos professores é a questão da religiosidade. E uma das alternativas foi utilizar a literatura e a música, assim a questão dos mitos africanos e da ancestralidade pode ser trabalhada de forma lúdica. A valorização da identidade pode trazer resultados surpreendentes não só em termos de aprendizado, mas também na forma como o aluno se coloca diante do mundo.

Já o projeto “Um pouco de nós, um pouco da África”, da Escola Bibliotecária Maria Luisa Monteiro da Cunha, em São Paulo, também um dos ganhadores da 4ª edição do Prêmio Educar para a Igualdade Racial, trabalha a questão da identidade através da arte! Os alunos foram convidados a confeccionar bonecos, cartazes e outros materiais que são guardados em caixas que servem como portfólios. Esta tarefa acabou contagiando toda a escola.


Gênero, raça, etnia, orientação sexual, origem geográfica, língua, religião, herança histórica, posicionamento político, comportamento alimentar, time de futebol, categoria profissional... É, vários aspectos sócio-políticos, históricos e culturais podem compor a identidade de um indivíduo. E as pessoas, que já não nascem iguais umas as outras, tornam-se ao longo da vida ainda mais únicas, originais, diferentes. E viva a diferença!

 
Religiosidade e Cultura
Desde que o mundo é mundo, a religiosidade faz parte da rotina de todos os povos, das mais variadas culturas, porque a humanidade sempre buscou o sentido da vida e tentou entender o que acontece com a espécie após a morte. Por maiores que sejam as diferenças, uma regra é básica: qualquer religião visa conduzir os seus fiéis à prática do bem, trazendo junto os fundamentos do amor e o exercício da solidariedade.

O Brasil é uma nação laica, ou seja, não adota uma religião oficial. A própria constituição federal confere aos brasileiros o direito de escolher a sua fé ou até mesmo optar por não ter fé alguma. Habitamos um território plural, com católicos, muçulmanos, protestantes, umbandistas, judeus, espíritas, budistas, candomblecistas, evangélicos, taoístas e messiânicos, entre outras denominações, convivendo pacificamente. Mas será que ainda há quem associe certas religiões a pessoas de determinados tipos físicos ou a uma cidade específica do país?

Foi o que descobrimos ao pedir que vinte pessoas espetassem alfinetes no mapa, indicando em qual estado brasileiro havia um maior número de fiéis das religiões afro-brasileiras. O jogo incluía responder onde moravam mais pessoas que se assumiam negras. Ganha uma fitinha colorida do Bonfim quem responder que a Bahia foi eleita pelo júri popular nos dois casos. Um senhor lembrou muito bem que lá “fica o berço da civilização negra do Brasil”. Além de indicar a região como o lugar onde aportaram muitos navios negreiros, uma senhora justificou o orgulho dos baianos de serem negros: “Quando conhece a sua origem você não tem vergonha do que é”.

Apesar dos dois entrevistados terem razão, os resultados apurados pelo Censo Demográfico nos surpreenderam. O Rio Grande do Sul é a região com maior concentração de adeptos declarados das religiões afro-brasileira, com 1,63% da população. Apesar de conhecida por seus terreiros seculares e mães de santo famosas, a Bahia ficou em 13º lugar, com apenas 0,09%. Em contrapartida, 75% dos cidadãos baianos se declararam negros contra 13% dos gaúchos. Impressionado com as estatísticas?

Pois é. Quase metade da população é afro-descendente e apenas 0,34% dos brasileiros professam as religiões afro-brasileiras, o que significa que nem todos os negros cultuam as entidades do Candomblé e da Umbanda. Mais do que isso. Basta dar uma espiada nas casas-de-santo para perceber que há muitos brancos seguindo estas religiões, alvos freqüentes de intolerância e preconceito. Para os adeptos do Cristianismo, por exemplo, elas nem são consideradas religiões, mas seitas.

“Pela lei toda e qualquer organização que se autodenomine uma associação religiosa é uma religião. Para o Direito, não existe a noção de autêntica ou falsa. Todas elas devem receber o mesmo grau de respeito, embora saibamos que, na prática, não vigore esta igualdade”, define o advogado Hédio Silva Júnior, doutor em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Nos últimos anos, no entanto, nenhuma religião obteve tantas vitórias nos tribunais como aquelas de matriz africana”, diz.

E embora as religiões acumulem na sua essência valores como bondade e amor ao próximo, diversas crenças foram açoitadas pela sociedade. Vamos aos fatos: na época do Império Romano, os cristãos eram atirados aos leões. Entre os séculos XIII e XVIII, a Inquisição perseguia protestantes, judeus e muçulmanos. Já no século XX, os regimes fascistas e nazistas condenaram à morte cerca de 6 milhões de judeus. E em pleno século XXI, ainda testemunhamos, perplexos, cenas de guerras de cunho religioso. Sobram exemplos em todas as civilizações de que o homem, usando em vão o nome de Deus, ainda vitima seus semelhantes. Como podemos agir para interromper este rastro sangrento da história?

Para saber mais
 
Mitologia dos Orixás
Reginaldo Prandi
Companhia das Letras, 2000
 
Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana
Nei Lopes
Summus / Selo Negro, 2004
 
Lendas africanas dos orixás
Pierre Verger e Carybé
Corrupio, 1987
 
O candomblé da Bahia
Roger Bastide
Companhia das Letras, 2001
 
Religiões negras - negros bantos
Edison Carneiro
Civilização Brasileira, 1991
 
Batuque, samba e macumba – Estudos do gesto e do ritmo [1926 – 1934]
Cecília Meireles
Martins Fontes, 2003
 
Dicionário de Arte Sacra e Técnicas afro-brasileiras
Raul Lody
Pallas, 2003
 
A busca da África no candomblé – Tradição e poder no Brasil
Stefania Capone
Pallas e Contracapa, 2004
 
Todos os santos são bem-vindos
Monique Augras
Pallas, 2005
 
O negro no futebol brasileiro
Mário Filho
Faperj e Mauad, 2003
 
O reino dos mestres – A tradição da Jurema na umbanda nordestina
Luiz Assunção
Pallas, 2006-04-25
 
Iemanjá – A grande mãe africana do Brasil
Armando Vallado
Pallas, 2002
 
Iniciação de muzenza nos cultos bantos
Ornato J. Silva
Pallas, 1998
 
Caminhos de Odu
Agenor Miranda Rocha
Pallas, 1998
 
Igbadu – A cabaça da existência – Mitos nagôs revelados
Adilson de Oxalá
Pallas, 1998
 
666 Ebós de Odu – Para todos os fins
Adilson de Oxalá
Pallas, 2005
 
O banquete do Rei - Olubajé - à música sacra afro-brasileira
José Flávio Pessoa de Barros
Pallas, 2005
 
A fogueira de Xangô, o orixá do fogo – Uma introdução à música sacra afro-brasileira
José Flávio Pessoa de Barros
Pallas, 2005
 
Ewé Órisá
José Flávio Pessoa de Barros e Eduardo Napoleão
Bertrand Brasil, 1998
 
Lendas da Criação – A saga dos Orixás
Rubens Saraceni
Madras, 2005

 
Educação Quilombola
A palavra quilombo tem origem na língua banto e se refere a um tipo de instituição sociopolítica militar conhecida na África Central, mais especificamente entre Angola e a atual República do Congo.

No Brasil escravocrata a palavra foi usada para designar comunidades organizadas por escravos negros fugidos, mas que também abrigavam índios e brancos pobres. Um dos quilombos mais conhecidos é o de Palmares, situado no interior de Alagoas, num local de difícil acesso. Formou-se por volta de 1595, ocupando um espaço territorial equivalente a um terço de Portugal, com cerca de 30 mil pessoas, lideradas por Zumbi dos Palmares. Possuía, além de casas, oficinas, olarias, templos religiosos, plantações e um conselho político e de defesa.

Os quilombos eram sociedades organizadas que plantavam o que precisavam comer, tinham hierarquia e eram livres para manifestar suas crenças, sua cultura.

Somente com a Constituição de 1988, o governo brasileiro reconheceu a legitimidade das comunidades remanescentes de quilombo e abriu o espaço legal para que elas lutassem pela posse coletiva de suas terras. Atualmente, existem cerca de 1436 comunidades remanescentes de quilombos, que abrigam cerca de 1 milhão e 300 mil brasileiros, em dados recentes da Fundação Palmares.

Para um melhor entendimento do que são os remanescentes de quilombos, o Decreto nº 4887/03 estabelece que:

Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos os grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a opressão histórica sofrida.

Um dos grandes desafios de quem educa e forma alunos em comunidades remanescentes de quilombo é valorizar a tradição oral numa sociedade que prioriza a língua escrita.


Ubiratan D’Ambrosio, especialista em etnomatemática, afirma que a educação quilombola é realizada a partir de outros contextos culturais porque ela reconhece os saberes da criança ao chegar à escola. E os saberes ancestrais são as bases, as raízes daquela comunidade.

Para as comunidades quilombolas, o pensar e o fazer são indissociáveis; já a escola formal, ao contrário, valoriza o saber sobre o fazer. No projeto de ensino realizado no quilombo de Murumutuba, que fica no noroeste do Pará, o objetivo é associar o pensar e o fazer, valorizar as práticas do cotidiano dos quilombolas. E é isso que acontece no ensino da matemática, a etnomatemática.

Outra experiência rica de educação quilombola ocorre no Colégio Estadual Sinésio Costa onde é desenvolvido o projeto “Uma leitura da Cultura Negra Riachense” que é uma extensão da proposta do projeto “Rio das Rãs: origem, cultura e resistência numa comunidade quilombola”, 2º lugar na 2ª edição do Prêmio Educar para a Igualdade Racial.

Um dos principais objetivos do trabalho é o desenvolvimento do senso de pertinência social, pessoal e coletivo do aluno. E quando o aluno tem a possibilidade de conhecer o seu contexto histórico cultural, isso possibilita também o auto reconhecimento e ele vai legitimar os seus saberes históricos, culturais, artísticos.

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É um trabalho contínuo para minimizar o preconceito, porque o preconceito nasce na ignorância. “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”, disse Nelson Mandela.
 
 
Material Didático

Material Didático
Quando esbarramos com as pessoas pelas ruas da cidade, não conseguimos descobrir onde elas moram, com o que trabalham, nem o quanto ganham. Mesmo assim, é comum que julguemos os outros pela aparência, ou seja, pelas roupas que vestem, o penteado dos cabelos, os objetos que carregam e pela cor da pele. Será que estes traços são suficientes para identificar moradia, profissão ou situação financeira de alguém?

Como o que nos interessa apurar no momento é o preconceito racial, inventamos um jogo para descobrir até que ponto a cor da pele de uma pessoa influencia, de fato, no julgamento que se faz pela aparência. Os vinte entrevistados, escolhidos aleatoriamente, relacionaram as fotografias de duas famílias, uma negra e outra branca, à habitação e ao local de trabalho do chefe de cada uma delas. Quer ver o resultado?

Um senhor negro foi o primeiro a apontar a família negra como moradora da casa mais humilde. Uma moça loura garantiu que qualquer um daquelas fotos poderia trabalhar no consultório médico. Já a jovem branca classifica a família negra com o aspecto mais feliz. Depois de um rapaz negro reclamar que a sociedade branca não oferece oportunidades aos afro-descendentes, um homem branco liga os negros à casa mal acabada, afirmando que fez esta associação motivado pela cor da pele de seus membros.

É lamentável, mas as pessoas vinculam mesmo os negros aos trabalhos braçais e às piores condições de moradia. Todos os dias nos deparamos com peças publicitárias, cenas de filmes e de novelas, personagens na literatura e nas histórias em quadrinhos que superestimam os brancos e subestimam os negros. Aos poucos, notamos um crescimento de exemplos positivos no negro na mídia, mas estas iniciativas, embora válidas, ainda são minoria. A atriz Zezé Motta, por exemplo, foi protagonista do filme ‘Xica da Silva’, dirigido por Cacá Diegues em 1976, e é hoje uma das figuras mais importantes da dramaturgia brasileira.

Zezé Motta vasculha suas mais remotas lembranças antes de afirmar que o negro é totalmente invisível no material escolar. “Não tenho lembrança de aprender sobre heróis ou celebridades negras na sala de aula, mas sempre encarei isso com naturalidade”, conta. E é verdade. Os negros sempre aparecem desempenhando funções subalternas, atividades exclusivamente manuais, em situações de penúria ou dignas de piedade na maioria dos livros didáticos e para-didáticos.

De acordo com Sueli Gonçalves, secretária de educação de Campinas, “nos livros de história, o negro costuma aparecer amarrado no tronco, recebendo o açoite. E se você tiver um olhar mais atento, aquele personagem negro aparenta ser pacífico, não sente dor e está ali numa boa”. Triste imagem, não? Por isso, é preciso bater incansavelmente nesta tecla: A escola tem um importante papel no combate à discriminação racial, a começar pela escolha do livros utilizados no decorrer do ano letivo.


Há muitos anos que a sociedade, principalmente através do movimento negro, vêm chamando atenção para os problemas educacionais que os negros enfrentam. Analfabetismo, evasão e baixa escolaridade são alguns dos mais graves. E as causas? Alguém já parou para estudar um meio de alterá-las? Pelo menos três motivos são lembrados: O acesso precário a uma educação pública de qualidade, a inexistência de políticas públicas de manutenção desses alunos em sala de aula e ao conteúdo – tanto do currículo quanto dos livros didáticos, que ora excluem ora reduzem a participação do negro na própria sociedade brasileira.

Sobre a Lei 10.639 , altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, e torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nas grades curriculares dos ciclos fundamental e médio ministrados nas redes públicas e privadas do país, Sueli Gonçalves é enfática: “A lei pela lei não muda nada. O governo, em todas as esferas, precisa instrumentar os professores em especial das disciplinas história, geografia, português e educação artística”, avalia.

Para saber mais
 
A África em sala de aula – Visita à história contemporânea
Leila Leite Hernandez
Selo Negro, 2005

 
Menina bonita com laço de fita
Ana Maria Machado
Ática, 2000

 
O pensamento negro em educação no Brasil - Expressões do movimento negro
Lúcia Barbosa e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (Org.)
Editora da Universidade Federal de São Carlos, 1997

 
Racismo e anti-racismo na educação - repensando a nossa escola.
Eliane Cavalleiro (Org.)
Summus / Selo Negro, 2001

 
 
Superando o racismo na escola
Kabengele Munanga (Org.)
Ministério da Educação / Secretaria de Educação Fundamental, 2001

 
 
Discriminação racial nas escolas: Entre a lei e as práticas sociais
Hédio Silva Júnior
Unesco, 2002

 
Amkoullel, o menino fula
Amadou Hampâté Ba
Casa das Áfricas e Palas Athena, 2003

 
Sikulume e outros contos africanos
Adaptado por Júlio Emílio Braz
Pallas, 2005

 
Contos negros da Bahia e contos de nagô
Deoscoredes M. dos Santos [Mestre Didi]
Corrupio, 2003

 
História do Preto
Heloísa Pires Lima
Companhia das Letrinhas, 1997


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África no currículo escolar

África no currículo escolar
O Brasil é habitado por cerca de 76 milhões de negros e pardos, o equivalente a 45% da população. Portanto, os negros não podem ser considerados uma minoria num país que só perde para a Nigéria em quantidade de afro-descendentes no mundo. O curioso é saber que mesmo com toda a riqueza cultural, histórica e econômica que nós, brasileiros, herdamos da África, ainda conhecemos muito pouco sobre o continente, onde vivem mais de 780 milhões de pessoas das mais variadas etnias.

Não é de hoje que os livros escolares e as notícias da imprensa apresentam uma África estereotipada. Para ilustrar que imagem é essa, elaboramos um jogo bem interessante. Dez pessoas foram convidadas a classificar a região a partir de alternativas. Você acha que elas vêem a África como sinônimo de desenvolvimento ou atraso? Saúde ou doença? Riqueza ou pobreza? Estabilidade ou instabilidade política? Tribo ou civilização?

Para um senhor com sotaque português, a África tem riquezas, sim, mas são mal distribuídas. Uma jovem menciona a Aids como um dos fatores que a levam a afirmar que o continente africano é associado à doença. Outra entrevistada justifica a escolha de instabilidade política ao lembrar das guerras que assolam o continente. Um depoimento, em especial, se destaca. É a fala de uma moça que aponta todas as opções desfavoráveis e explica o motivo: “Escolhi os aspectos negativos porque é o que a televisão mostra”.

Claro que o continente africano enfrenta problemas muito graves, como estes indicados pelas pessoas que participaram do jogo, no entanto, não se pode negar que só temos acesso a alguns aspectos da realidade daquele país. A história da África reserva bons capítulos que os livros didáticos não contam. Para início de conversa, foi lá que surgiu o homo sapiens há cerca de 130 mil anos. Pesquisam indicam que os primeiros indivíduos da espécie humana eram negros, pequenos e com feições muito semelhantes às do africano de hoje.

A magistral civilização egípcia, notória pelos seus avançados conhecimentos em engenharia, geometria e matemática, é outro exemplo da contribuição da África para a humanidade. E mesmo sendo uma referência esplêndida daquela cultura ímpar, os livros costumam omitir que o Egito fica no continente africano. Quando desconhecemos todo o valor dos africanos reforçamos um sentimento de inferioridade nos afro-descendentes dos quatro cantos da terra. Tanto os negros quanto os brancos saem perdendo. Os brancos, sobretudo, porque são criados com a falsa ilusão de serem membros de uma raça superior.

A desinformação tem origem quando folheamos o livro didático, na sala de aula. Os capítulos dedicados à história da África são simbólicos e sempre relacionados ao tema ‘escravidão’. E mesmo a escravidão é abordada sob uma perspectiva eurocêntrica, isto é, do ponto de vista do colonizador, que ignora um item elementar: a diversidade étnica daquele povo. Ninguém explica que os escravos do Brasil possuíam as mais diversas origens, dialetos, valores, crenças e hábitos. Pelo contrário, eles sempre são rotulados como uma coisa só: negros africanos, serviçais dos brancos.

De acordo com o antropólogo Kabengele Munanga, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e vice-diretor do Centro de Estudos Africanos da mesma instituição, “nossos livros didáticos têm uma orientação que não contempla as raízes africanas do Brasil, influenciando negativamente na formação da auto-estima dos jovens brasileiros de ascendência africana. Para qualquer pessoa se afirmar como ser humano ela tem que conhecer um pouco da sua identidade, das suas origens, da sua história”.

Com a implementação da lei 10.639, grande parte destas questões serão resolvidas. A lei torna obrigatório o ensino sobre a história e a cultura afro-brasileiras nas escolas do país inteiro. Além de entender acerca do Império Romano, do feudalismo na Europa, da Revolução Industrial na Inglaterra, da Revolução Francesa e da Guerra Civil norte-americana, os alunos serão informados, desde muito cedo, a respeito da África como um continente vivo e enriquecedor.

Para saber mais
 
Antologia do Negro Brasileiro
Edison Carneiro
Agir, 2005

 
 
Kitabu – O livro do saber e do espírito negro-africano
Nei Lopes
Senac Rio, 2005

 
 
Em costas negras – Uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro
Manolo Florentino
Companhia das Letras, 1997

 
 
Os libertos: sete caminhos na liberdade de escravos na Bahia do século XIX
Pierre Verger
Corrupio, 1992

 
A partilha da África Negra
Henri Brunschwig
Perspectiva, 2004

 
 
Compreender África – Teorias e práticas de gestão
Rui Moreira de Carvalho
FGV, 2005

 
A manilha e o libambo – A África e a escravidão de 1500 a 1700
Alberto da Costa e Silva
Nova Fronteira, 2002

 
Reis negros no Brasil escravagista – História da festa de coroação de Rei Congo
Marina de Mello e Souza
Editora UFMG, 2002

 
Ancestrais – Uma introdução à história da África Atlântica
Mary Del Priore e Renato Pinto Venâncio
Campus, 2004

 
Fluxo e refluxo – Do tráfico de escravos entre o golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos – do século XVIII e XIX
Pierre Verger
Corrupio, 2002

 
A escravidão na África – Uma história de suas transformações
Paul E. Lovejoy
Civilização Brasileira, 2002

 
Casa-Grande & Senzala
Gilberto Freyre
Global Editora, 2005, edição comemorativa
 
A África e os africanos na formação do mundo atlântico [1400 – 1800]
John Thornton
Campus e Elsivier, 2004

 
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